
Gravura do Largo de São Domingos antes do terramoto


1. Um manuscrito redigido por um marinheiro anónimo de origem alemã que se encontrava fundeado no porto de Lisboa e que parece ser o relato mais fidedigno do Massacre ocorrido em Abril de 1506. Nele não se escreve uma única vez a palavra "judeu".
2. Garcia de Resende (1470-1536), que cita na "Miscelânea": "os judeus vi cá tornados/todos num tempo christãos/os Mouros então lançados/ fora do Reyno passados/ e o reyno sem pagãos/ vimos sinagogas mezquitas/ em que sempre erã dictas/ e pregadas heresias". Da expressão "sinagogas mezquitas" se deduz que os locais de culto de árabes e judeus, eram uma e a mesma coisa. No que se refere ao massacre de 1506 note-se que esta obra foi escrita 48 anos depois, no ano de 1544, o que coloca especial ênfase na expressão "os judeus vi cá tornados"... (6)
3. Damião de Góis (1502-1572), na “Crónica do Felicissimo Rei Don Manuel de Góis”, encomendada pelo Cardeal Don Henrique, também patrono-mor da Sancta Inquisição do Reino, impressa em Julho de 1566. No capitulo 102 evoca com minúcia "do alevantamento que se em Lisboa fez contra os Christãos-Novos". Refere 1000 mortos (muito longe dos 4000 da propaganda judaica), mas nem por uma vez a palavra "judeus" é mencionada.
4. Jerónimo Osório, Bispo cristão de Silves (1506-1580), nascido nesse mesmo ano do massacre, teólogo de origem castelhana e amigo de Inácio de Loyola, influenciaria mais tarde D. João III de Portugal a chamar a Companhia de Jesus para Portugal. Fez estudos em Teologia cristã e os seus alegados conhecimentos da "língua hebraica" ter-lhe-iam permitido ler as obras dos Sagrados Padres da Igreja. Em 1537, D. João III nomeou-o professor de Sagrada Escritura na Universidade de Coimbra. É nessa qualidade que faz uma referência ao Massacre de 1506 num escrito datado de 1571, isto é, 65 anos depois do acontecimento.
5. Solomon Ibn Verga, autor do “Shebet Yehuda” (“o Ceptro de Juda”), um dos 12 líderes das tribos israelitas dos 12 filhos da personagem da mitologia bíblica Jacob. “Ibn Verga não assistiu in situ aos acontecimentos do Massacre, recriou a sua narrativa através de testemunhos orais, encontrando-se o texto original escrito em hebraico, publicado postumamente pelo filho Joseph Ibn Verga, conforme citado por Yosef Hayim Yerushalmi, (1932-2009) judeu norte americano, professor na Universidade de Columbia. Trata-se de pura mistificação bíblica contemporânea. (ver nota complementar nº 8)
6. Yosef Ha-Kohen (1496-1575) um estrangeiro nascido em Avignon que viveu em Castela na povoação de Cuenca vindo a falecer em Génova, cuja única afinidade é ter-se servido do livro de Samuel ben Usque “Consolação às Tribulações de Israel” como fonte para a obra de sua autoria “Crónicas dos Reis de França e da Turquia” (1558)
7. Imanuel Aboad (1555-1628) deixou um testemunho “já datado do século XVII e muito ao sabor e tradição do profetismo bíblico (citado a pp 69 da própria obra aqui criticada).
8. Isaac Abranavel, (1437-1508) é uma das testemunhas mais importantes. Infelizmente não residia em Portugal desde à muito. Entrou ao serviço do rei Afonso V de Portugal como tesoureiro e, abusando das suas funções, converteu-se num rico financeiro (obviamente judeu). Abravanel foi obrigado a deixar o seu cargo, tendo sido acusado pelo Rei D. João II (1481-1495) de conivência com o Duque de Bragança, que foi decapitado sob acusação de conspiração. Avisado a tempo, Abravanel salvou-se, fugindo em sobressalto para Castela em 1483, ou seja, 23 anos antes do massacre. Relatos de época referem a figura simplesmente como o "Abarbanel" (daí o léxico popular "abarbatar"). Não voltou. Nem foi minimamente afectado com a "ordem de expulsão" de 1492. Radicado em Toledo começou a servir a casa de Castela, juntamente com o seu amigo e influente Don Abraham Senor, de Segóvia, encarregando-se ambos (7) de administrar as receitas públicas e fornecer abastecimentos ao exército real, com "contratos que executaram com boa competência, para satisfação total de Fernando e Isabel de Castela".

Como se explica que Samuel ben Usque tenha "fugido da bárbara Inquisição cristã" em Portugal indo refugiar-se e trabalhar em perfeita sintonia com a Inquisição italiana decretada pela bula Papal “Pessimum Genus” (8) para todos os reinos europeus? (9)
Notas
(1) Inicialmente Sefarad era Sardis, capital do reino da Lidia no tempo do imperador Dioclesiano, uma das sete igrejas do "Livro do Apocalipse". No seu apogeu foi uma cidade rica por se situar no vale do rio Hermo cujo leito era rico em ouro. A invenção da moeda é atribuida aos Lídios.
(2) "Historia de los Moriscos, Vida Y Tragedia De Una Minoria", Domínguez Ortiz e Bernard Vincent, 1978 e "Deportados en Nombre de Dios", Rafael Carrasco, 2009.
(3) Fátima, de Fatma, também nome de povoação nos arrebaldes de Meca. Ver o livro "Os Mouros Fatímidas e as Aparições de Fátima" de Moisés Espirito Santo, Assirio&Alvim, 2006.
(4) Citado por Maria Filomena Lopes de Barros em "A Comuna Muçulmana de Lisboa, séculos XIV e XV", Biblioteca de Estudos Árabes, edições Hulgin, 1998
(5) À semelhança da popular obra do académico israelita Shlomo Sand "A Invenção do Povo Judeu", na qual se defende que depois da citação dos habitantes da Judeia pelo historiador romano Flavius Josefus no ano 76, não existiu pelos18 séculos seguintes qualquer outra citação historiográfica sobre os Judeus, só vindo estes de novo a ser mencionados no século XIX com o nascimento da ideologia Sionista.
(6) Garcia de Resende teria escrito que o povo amotinado pelos “dous frades domínicos pregadores nos púlpitos e senhores em lugares públicos, citadinos e vilãos, nas praças, atribuindo aos cristãos-novos a responsabilidade da fome, peste ou terramoto que vinham (...) mais de quatro mil matarom”. Mas, este testemunho de Resende na qualidade de poeta da Corte escrito 48 anos depois, não é fiável, quando comparado com a descrição just-in-time de Damião de Góis, que refere cerca de 1000 vítimas de conversos herejes (e não exclusivamente judias)
(7) Existe um descendente contemporâneo desta familia que, na sua famosa diáspora de judeus errantes, foram parar ao Brasil. Trata-se de Senor Abravanel (n 1930), de nome artístico Silvio Santos, um magnata dos Media com um património calculado em 6 mil milhões de reais.
(8) Inocêncio VIII inspirou-se em Tácito para evocar o título: "Pessimum inimicorum genus laudantes", traduzindo: "aqueles que nos louvam e bajulam são os nossos piores inimigos"

(10) A edição moderna da "Consolação às Tribulações de Israel" é da Fundação Calouste Gulbenkian, 1989; com coordenação do mesmo Yosef Hayim Yerushalmi, professor de Estudos Judaicos nas Universidades de Colúmbia e Harvard
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